O que prometia ser mais uma entrevista de day time transformou-se num dos momentos televisivos mais tensos das últimas semanas. André Ventura voltou à televisão portuguesa para uma conversa com Júlia Pinheiro, mas acabou encurralado por uma pergunta direta, incómoda e carregada de peso histórico. Em causa, a polémica frase recentemente proferida pelo líder do Chega, onde afirmou que “eram precisos três Salazares para pôr o país na ordem”. Mal o tema foi lançado, o ambiente no estúdio mudou por completo.

Sem rodeios, Júlia Pinheiro avançou com a pergunta que muitos portugueses faziam em casa: “Não acha que isso é profundamente ofensivo?”. O silêncio que se seguiu foi quase palpável. A apresentadora lembrou, de forma firme, todos aqueles que sofreram perseguições, prisões e censura durante a ditadura fascista em Portugal. Foi um momento raro de confronto frontal em televisão generalista — e Ventura percebeu que não seria uma resposta fácil.

Visivelmente desconfortável, o candidato à Presidência da República tentou recuar. No seu habitual tom demagógico, garantiu que tudo não passara de uma “força de expressão” e, mais tarde, de uma simples “expressão popular”. Numa tentativa de virar o jogo, acusou mesmo os críticos de má-fé, sugerindo que as suas palavras tinham sido deliberadamente mal interpretadas. “Toda a gente percebeu o que eu quis dizer”, insistiu, minimizando o impacto da comparação com o ditador.

Mas Júlia Pinheiro não cedeu. Com serenidade, mas firmeza, deixou um aviso claro: “As palavras têm peso. Um representante político deve medir as suas declarações com responsabilidade”. A frase caiu como um balde de água fria no discurso ensaiado de Ventura, que ainda tentou aproveitar o momento para reforçar o seu habitual argumento eleitoral — o combate à “bandalheira” em Portugal —, transformando a entrevista num palco de campanha disfarçada.
O momento não passou despercebido. Nas redes sociais, multiplicaram-se reações, elogios à postura da apresentadora e críticas à tentativa de normalização de referências a um dos períodos mais sombrios da história portuguesa. Para muitos, ficou claro que a corrida a Belém promete ser marcada por confrontos duros — e que, desta vez, André Ventura encontrou em Júlia Pinheiro uma entrevistadora que não teve medo de dizer aquilo que outros evitam.