Era apenas mais uma viagem aparentemente banal. Um regresso tranquilo pela A2, no sentido Setúbal–Lisboa, numa tarde em que a chuva começou a cair com força, tornando o asfalto traiçoeiro. Aos 78 anos, Torres Couto, histórico ex-secretário-geral da UGT, seguia no banco do passageiro enquanto a mulher conduzia com prudência. “Até lhe disse para abrandar”, recorda. O carro seguia a cerca de 90 km/h, na faixa do meio. Nada fazia prever que, em segundos, aquele percurso rotineiro se transformaria num dos momentos mais violentos e irreversíveis da sua vida.

De forma repentina, um BMW surgiu como um míssil fora de controlo. Segundo os relatos, seguia a cerca de 180 km/h. O condutor perdeu o domínio do veículo e embateu violentamente na traseira do carro de Torres Couto. O impacto foi brutal. O automóvel rodopiou em vários piões, enquanto o som do metal a rasgar-se se misturava com o barulho da chuva e dos travões. “No momento em que batemos, senti que o cinto de segurança me prendeu… e ali percebi que tinha perdido tudo”, contou. Foi uma perceção imediata e aterradora: o corpo deixou de responder. Estava consciente, mas imóvel. Tetraplégico. “Pensei mesmo que ia morrer naquele instante.”

No meio do caos, houve um único momento de alívio. Torres Couto conseguiu ver a esposa fora do carro, viva. Essa imagem tornou-se um ponto de luz num cenário de destruição total. Pouco depois, já no chão, à espera de ser socorrido, lembra-se de ter visto o condutor do BMW aproximar-se, em estado de choque, a pedir-lhe perdão repetidamente. Um pedido que ecoa até hoje na memória de Torres, que acredita que a combinação de velocidade excessiva e distração — possivelmente o uso do telemóvel — foi determinante para a tragédia.
A partir daí, começou uma nova vida que nunca escolheu. O diagnóstico foi devastador: tetraplegia. Um homem que sempre viveu na linha da frente da luta sindical, da palavra firme e da ação constante, viu-se subitamente dependente para tudo. “Ao princípio, a minha vontade era morrer”, confessou, sem filtros. A dor não é apenas física; é emocional, psicológica, existencial. Há dias em que o sofrimento é descrito como “insuportável”, com lágrimas constantes e uma sensação de perda absoluta de identidade.

Ainda assim, Torres Couto recusa entregar-se por completo ao desespero. “Faço tudo para melhorar os meus movimentos”, disse, mesmo sabendo que cada exercício é feito com dor, frustração e um cansaço profundo. A família tornou-se o seu maior motor. “Luto porque vejo o desespero deles”, admitiu. A cada pequeno progresso, por mínimo que seja, agarra-se à ideia de que desistir seria uma segunda derrota.
Hoje, o acidente na A2 não é apenas uma estatística de excesso de velocidade. É o retrato cru de como um segundo pode destruir uma vida inteira — e de como, mesmo sem o corpo, um homem pode continuar a resistir. Torres Couto perdeu os movimentos, perdeu a autonomia, perdeu o futuro que imaginava. Mas não perdeu a voz, nem a lucidez, nem a capacidade de transformar a própria tragédia num alerta silencioso para todos.