O país parou para ouvir o grito silencioso de Ângela Pereira. Com apenas 23 anos, a jovem expôs nas redes sociais uma realidade crua e devastadora: depois de anos de luta, múltiplos tratamentos agressivos e dois transplantes de medula, chegou a um ponto em que a medicina portuguesa já não tinha mais armas para oferecer. O inimigo final não foi o cancro, mas um fungo raro e mortal — o aspergiloma — que se aproveitou do seu corpo fragilizado e resistiu a tudo o que lhe foi administrado. O vídeo, carregado de dor e lucidez, deixou milhares em lágrimas. Ângela não pediu dinheiro. Pediu apenas uma oportunidade de continuar viva.

O esclarecimento do IPO do Porto veio confirmar o cenário mais temido. Seis linhas diferentes de quimioterapia. Um autotransplante. Um alotransplante com dador familiar. Um corpo profundamente imunodeprimido. E, por fim, uma aspergilose invasiva resistente a todos os antifúngicos disponíveis, mesmo em combinação. Nenhuma abordagem médica ou cirúrgica apresentou resposta. O prognóstico passou a ser “muito reservado” — palavras clínicas que, na prática, significam que o relógio começou a contar ao contrário. Foram acionados cuidados paliativos. Para muitos, seria o fim da estrada.
Mas Ângela recusou aceitar o silêncio como resposta final. Entre a exaustão física e a lucidez brutal de quem sabe o que está em jogo, revelou existir uma última luz ao fundo do túnel: o National Aspergillosis Centre, em Manchester — um centro de referência mundial, especializado exclusivamente no fungo que ameaça a sua vida. “Não sei se posso viajar, não sei se os médicos autorizam… mas gostava muito de ficar cá mais tempo. Ainda tenho sonhos”, disse. A frase correu o país como um murro no estômago.

Foi então que a história ganhou contornos quase cinematográficos. Mafalda Araújo, amiga de Ângela, decidiu agir onde muitos só conseguiam rezar. Viajou até Manchester com todos os relatórios clínicos, exames e históricos médicos. Contra todas as probabilidades, conseguiu uma reunião presencial com um especialista do centro. Pouco depois, veio a confirmação que reacendeu a esperança: Chris Kosmidis, médico de referência internacional na área, entrou diretamente em contacto com o IPO do Porto. Pela primeira vez em meses, falava-se novamente de possibilidades — ainda que mínimas, ainda que complexas.
Nos bastidores desta corrida contra o tempo surgiu também Numeiro, o influencer que se juntou à missão. Através de contactos improváveis, encontros de última hora e uma viagem marcada pela urgência, ajudou a abrir portas que pareciam inalcançáveis. “Saí de lá com a sensação de missão cumprida”, confessou Mafalda. Hoje, Ângela continua internada, frágil, mas não esquecida. Entre Portugal e Manchester, entre a ciência e o milagre, uma jovem de 23 anos recusa desistir — e um país inteiro aguarda, em silêncio, que a esperança chegue a tempo.