O caso está a agitar os bastidores políticos e ameaça tornar-se num dos episódios mais embaraçosos da carreira de André Ventura. O líder do Chega pode estar à beira de perder o mandato como deputado municipal em Moura, não por divergências ideológicas ou disputas eleitorais, mas por algo bem mais básico e explosivo: ausências sucessivas e prolongadas.

De acordo com uma investigação revelada pelo jornal Público, desde que foi eleito em 2021, André Ventura faltou a 30 reuniões da Assembleia Municipal de Moura e, em sete ocasiões, nem sequer se fez representar. Os números são chocantes e contrastam com a imagem de político combativo e omnipresente que o líder do Chega projeta a nível nacional. Na prática, Ventura participou apenas em duas sessões: a da tomada de posse e a reunião sobre o plano de atividades e orçamento da Câmara em 2022. Desde então, silêncio absoluto.
A situação é potencialmente grave. A lei é clara: três faltas consecutivas ou seis intercaladas sem justificação podem levar à perda imediata do mandato. E, segundo as atas consultadas, o cenário ultrapassa largamente esses limites. Ainda assim, o Chega mantém-se em silêncio, recusando comentar se existe ou não o risco real de Ventura perder o lugar.
Nos corredores políticos, fala-se já de um caso de abandono político. Há quem acuse Ventura de usar o mandato apenas como trampolim eleitoral, sem qualquer intenção de acompanhar de perto os problemas locais. Outros apontam para uma contradição gritante entre o discurso de exigência aos outros políticos e o próprio comportamento.

Recorde-se que, nas autárquicas de setembro de 2021, o Chega alcançou o terceiro lugar em Moura, atrás do PS e da CDU, elegendo seis deputados municipais, entre eles André Ventura. A campanha no concelho foi marcada por forte polémica, sobretudo pela insistência do partido na questão da comunidade cigana, o que dividiu profundamente a população local e colocou Moura no centro do debate nacional.
Agora, ironicamente, é o próprio líder do Chega que se vê no centro de uma nova controvérsia — desta vez não por palavras incendiárias, mas por não aparecer. A pergunta começa a ecoar cada vez mais alto:
pode um político exigir compromisso ao país quando abandona, na prática, o mandato que lhe foi confiado?